Menções indiretas a candidatos, porém, podem vir a ser alvo de questionamentos na Justiça Eleitoral

22 set 2026 - 13h46

(atualizado às 14h24)

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- Por: Maria Clara Andrade

Lula na 81ª Assembleia da ONU

Foto: Ricardo Stuckert

Mesmo com um discurso permeado por menções a situações internas e um endereçamento direto às eleições presidenciais brasileiras em seu encerramento, a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na 81ª Assembleia da ONU, nesta terça-feira, 22, não pode ser lida, necessariamente, como uma propaganda eleitoral. É o que dizem analistas ouvidos pelo Terra, que destrincharam as nuances do discurso do petista.

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"Não houve pedido de voto nem citação direta de adversário, e a fala ocorreu num ato de Estado que o presidente cumpre todo ano. Nesses termos, seria muito difícil enquadrar o discurso como propaganda eleitoral ou conduta vedada", avalia Arthur Santos Lira, cientista político da Fatto Inteligência Política.

Ele frisa, porém, que o presidente conseguiu tratar de temas caros à sua campanha política e trazê-los de volta à pauta, em um momento em que as eleições ficaram em segundo plano na mídia em meio à crise no Supremo Tribunal Federal.

Recados a Trump, soberania e eleições: veja a íntegra do discurso de Lula na ONU:

"Bets, fim da escala 6x1 e combate ao feminicídio são bandeiras de campanha de Lula e foram ditas num palco que garante cobertura da imprensa", afirma.

Para o cientista político Paulo Ramirez, professor da ESPM, a menção a essas questões e às eleições são um "aceno ao seu eleitorado", mas dificilmente a Justiça Eleitoral poderia considerar a fala um crime. "É claro que a fala tem uma intenção eleitoral, embora não seja um crime eleitoral", afirma.

Ainda assim, a advogada Carolina Venuto, especialista em direito público e sócia-diretora da ÉTICA Inteligência Política, avalia que a questão pode ser usada por adversários. Ela concorda que não houve campanha política explícita, mas relembra que o discurso do então presidente Jair Bolsonaro, em 2022, também na ONU, foi alvo de questionamentos jurídicos.

Na ocasião, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso posterior de imagens do discurso na campanha de Bolsonaro.

"A situação atual não é necessariamente equivalente, mas o precedente mostra que os trechos mais sensíveis do discurso de Lula podem abrir espaço para questionamentos jurídicos por parte da oposição, especialmente pela combinação entre sua condição de presidente, sua candidatura à reeleição e as referências ao processo eleitoral e aos adversários políticos", afirma.

"Lula também associa o pleito à disputa entre democracia, pilar defendido por ele diversas vezes ao longo do discurso, e o negacionismo, que seria indiretamente associado à Flávio Bolsonaro (PL). Essa combinação torna o discurso particularmente sensível do ponto de vista eleitoral, ainda que não haja, de forma explícita, um pedido de voto ou uma referência direta à sua candidatura", complementa Carolina.

Discurso com duras críticas no cenário internacional

Lula envia ‘recado’ a Trump durante discurso na ONU: 'O Brasil não cabe no quintal de ninguém':
Do ponto de vista dos temas internacionais, o presidente Lula fez um discurso pautado nas críticas à postura da Organização das Nações Unidas (ONU) frente às guerras e com recados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para os analistas, Lula foi firme em suas ponderações, mas as falas não trouxeram nenhuma surpresa.
"Na parte externa, repetiu a cobrança de uma ONU mais ativa, criticou o Conselho de Segurança e a falência da política diante das guerras, com ataque direto ao governo Netanyahu, sem novidades. A frase de que 'o Brasil não cabe no quintal de ninguém', somada à defesa de parceiros com agenda positiva, foi o recado à Casa Branca, dito sem fechar portas. Tanto que o presidente citou a tentativa de parceria com os Estados Unidos no combate à lavagem de dinheiro, ao crime organizado e à corrupção", avalia o cientista político Arthur Santos Lira.
Ele considera que não houve indisposição causada por Lula nas críticas a Trump, já que o tom não chega a ser uma novidade.
Carolina Venuto, sócia-diretora da ÉTICA Inteligência Política, concorda e diz que Lula considerou o espaço da ONU para apelar para a diplomacia, "deixando claro que o Brasil está insatisfeito com as tarifas impostas, mas continua aberto ao diálogo e à negociação antes de adotar medidas de reciprocidade".
Por outro lado, o também cientista político Paulo Ramirez considera que o discurso pode, sim, criar uma saia justa. Ele frisa que os dois mandatários estão passando por campanhas eleitorais, a presidencial no Brasil e a legislativa nos EUA.
"Esse é um momento em que tanto o Lula defende seus interesses enquanto candidato, interesses do País, enquanto que Trump também precisa mostrar uma linha mais dura para gerar um convencimento do eleitorado, como se os Estados Unidos fossem os xerifes do mundo", diz, avaliando que não deve ocorrer novas negociações por enquanto.
Fonte: Portal Terra
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