Matheus Leitão

Foto colorida de Antonio Lavareda
Foto colorida de Antonio Lavareda · Imagem: Reprodução / Internet

Cientista político afirma que o voto útil já está acontecendo e beneficia Flávio, que avança enquanto candidatos de menor expressão recuam

Flávio seria favorito se eleição fosse hoje, diz Antonio Lavareda. Vídeo
Flávio seria favorito se eleição fosse hoje, diz Antonio Lavareda. Vídeo · Imagem: Source: www.metropoles.com

Matheus Leitão, Rafael Campos, Maria Carolina Brito

23/09/2026 19:41

Reprodução / Internet

O cientista político Antônio Lavareda avalia que Flávio Bolsonaro seria o favorito se a eleição presidencial ocorresse agora, embora apareça numericamente empatado com Lula nas projeções para o segundo turno. Em entrevista ao Agora Metrópoles, conduzida por este colunista e por Rafael Campos, ele afirmou que a maior abstenção entre eleitores de baixa renda pode prejudicar o presidente também no primeiro turno.

Lavareda disse que o voto útil já está acontecendo e beneficia Flávio, que avança enquanto candidatos de menor expressão recuam. Para ele, terminar o primeiro turno à frente de Lula daria ao senador uma vantagem importante na mobilização para a etapa seguinte.

Ao analisar a avaliação dos ministros do Supremo, Lavareda explicou por que Alexandre de Moraes ainda registra 36% de aprovação apesar do noticiário negativo. Parte dos eleitores, disse, continua a vê-lo como símbolo da resistência às tentativas de golpe. Além disso, a exposição das relações de outros ministros com Daniel Vorcaro teria diluído o desgaste que recaía sobre Moraes.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

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Coluna – Diferentemente de outras pesquisas, a AtlasIntel não coloca Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico no primeiro turno. Como a campanha do presidente deve encarar esses números?

Antônio Lavareda – Essa pesquisa, de certa forma, corrobora o conjunto das outras divulgadas mais recentemente. No IPESP Analítica, instituto cujo conselho científico eu presido, temos um agregador bayesiano que hoje apresenta números muito parecidos no primeiro turno: Lula três pontos à frente, com 39%, contra 36% de Flávio. No segundo turno, há empate numérico, de 44% a 44%. São números compatíveis com os da AtlasIntel.

A abstenção penaliza mais o presidente Lula por causa da concentração de seus votos entre os eleitores da base da pirâmide socioeconômica, onde ocorre a maior taxa de abstenção. Isso torna o resultado do primeiro turno imprevisível. Uma diferença pequena, de dois a três pontos, pode desaparecer nas urnas.

No segundo turno, em que o presidente aparece numericamente empatado, essa diferença de comparecimento também o prejudicaria. Mas a eleição não é hoje. Temos, teoricamente, 35 dias pela frente, o que no Brasil é algo próximo de uma eternidade.

Coluna – Tenho conversado com as duas campanhas e percebido, entre aliados de Lula, o temor de que Flávio Bolsonaro termine o primeiro turno um pouco à frente. Isso poderia impulsionar a campanha de Flávio e abalar a de Lula. Uma pequena vantagem no primeiro turno faria grande diferença no segundo ou a disputa será um plebiscito sobre o presidente?

Antônio Lavareda – O segundo turno será necessariamente um plebiscito em torno do presidente Lula. Mas uma vitória de Flávio no primeiro turno teria um impacto formidável: seria uma injeção de entusiasmo em seus eleitores e uma ducha de água fria no eleitorado de Lula. A diferença emocional na largada das mobilizações seria extremamente significativa.

Coluna – Na sua avaliação, analisando o cenário de hoje, quem é o favorito: Lula ou Flávio Bolsonaro?

Antônio Lavareda – Se a eleição fosse realizada hoje ou amanhã, o favorito seria Flávio Bolsonaro. No agregador, o resultado é de 44% a 44%, mas a abstenção afeta mais os eleitores de baixa renda e baixa escolaridade — e mais de 40% dos eleitores de Lula têm esse perfil. Assim como em 2022, há uma probabilidade elevada de que Lula perca intenções de voto na passagem da pesquisa para o voto efetivo, por causa do não comparecimento.

Coluna – Diante desse cenário, como você vê o voto útil?

Antônio Lavareda – O voto útil já está ocorrendo em boa medida e beneficiando Flávio. Basta comparar o avanço dele com o recuo, no agregador, dos candidatos de menor expressão. A hipótese de a eleição terminar no primeiro turno, porém, é remota: a probabilidade é inferior a 2%.

Coluna – Uma pesquisa divulgada hoje mediu a avaliação positiva dos ministros do Supremo. Cármen Lúcia e André Mendonça aparecem com 47%; Flávio Dino, 44%; Alexandre de Moraes e Luiz Fux, 36%; Cristiano Zanin, 34%; Gilmar Mendes, 26%; Edson Fachin, 22%; Nunes Marques, 12%; e Dias Toffoli, 5%. Por que Moraes não está tão mal na opinião pública quanto se poderia esperar após as acusações e a repercussão recente?

Antônio Lavareda – Alexandre de Moraes tem um desempenho superior ao de dois terços dos colegas de corte. Isso surpreende, porque poucos homens públicos foram alvo de tanto noticiário negativo.

Há duas razões principais. Uma parte da população o vê de forma muito negativa por causa das acusações recentes relacionadas a Daniel Vorcaro. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa o considera o “herói da resistência”, pela atuação no TSE contra as tentativas de golpe e no julgamento de Jair Bolsonaro.

Além disso, a sessão do STF transmitida ao vivo expôs situações delicadas envolvendo o relacionamento de outros ministros com Vorcaro. Isso acabou diluindo a carga negativa que recaía exclusivamente sobre Moraes.

Coluna – A pesquisa AtlasIntel divulgada hoje mostrou que 43,8% dos eleitores acreditam haver mais aliados de Bolsonaro envolvidos no escândalo do Banco Master. Outros 43,4% acreditam que há mais aliados de Lula. Desde que o caso passou a dominar o noticiário, nomes ligados à direita têm sido citados em relações com o banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo o Intercept, Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com ele para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. Há também menções ao senador Ciro Nogueira e ao ex-governador Cláudio Castro. Do outro lado, aparece, por exemplo, o senador Jaques Wagner. Ser citado, evidentemente, não significa ter cometido um crime. Como o eleitor está incorporando o escândalo Master à sua decisão de voto?

Antônio Lavareda – Boa parte do resultado de uma pesquisa é determinada pelo formato da pergunta e pelas opções oferecidas. Sem fazer uma crítica ao instituto, às vésperas de uma eleição talvez fosse mais esclarecedor perguntar diretamente quem está mais envolvido no escândalo do Banco Master: o presidente Lula ou o senador Flávio Bolsonaro.

Também precisamos levar em conta que, nesta altura da campanha, fatos de grande repercussão deixam de ser lidos de forma isolada. Eles passam pela lente da preferência eleitoral. Os eleitores de Flávio provavelmente apontam Lula e políticos ligados a ele; os eleitores de Lula apontam políticos ligados a Flávio.

Uma pergunta mais específica, citando os dois personagens centrais, talvez ajudasse a esclarecer quem pode ser mais afetado nas urnas por esse escândalo de proporções ciclópicas na política brasileira.