Hugo Calderano tem colecionado “primeiras vezes” para o tênis de mesa brasileiro. Aos 29 anos, o carioca vive o auge de uma carreira marcada por títulos inéditos e recordes, chegando aonde nenhum outro atleta da modalidade fora da Ásia e da Europa chegou — o que o tornou peça fundamental para a popularização do esporte por aqui

Hugo Calderano em ensaio exclusivo para a GQ Brasil de outubro — Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil

Vez ou outra, surgem atletas capazes de mudar o rumo de esportes ainda não tão populares no Brasil. A combinação de talento, resultados e carisma faz crescer o interesse do público em acompanhar seus passos, assistir aos campeonatos, entender melhor as regras do jogo. Quem sabe até praticar a atividade. Por exemplo, um ano antes de Gabriel Medina se tornar, em 2014, o primeiro campeão mundial de surfe do país, 26% dos brasileiros se diziam conectados com a modalidade, segundo pesquisa da Ibope Repucom. Em novembro de 2021, já com Medina tricampeão global e compondo o movimento chamado Brazilian Storm, atingimos o maior volume de fãs de surfe na história, com o índice saltando para 41%.

Então, temos Hugo Calderano, 29. No caso do mesa-tenista carioca, existe até um nome para o fenômeno: o “efeito Calderano”. A Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) noticiou, em agosto de 2025, um recorde de membros filiados, com um crescimento de mais de 3 mil registros em apenas quatro meses — atualmente são 12.803 atletas, 504 técnicos e 718 árbitros ativos.

“Essa onda ajuda muito, especialmente na motivação da nossa comunidade e no resgate daqueles praticantes de infância que estão, na vida adulta, buscando uma atividade com a qual se identifiquem. Hoje, vemos nos eventos que organizamos um ânimo maior do público e uma visão clara de que é possível chegar lá, com esforço, treino e dedicação”, afirma Geraldo Campestrini, diretor da CBTM.

O carinho do público fica evidente em cerimônias como o Prêmio Brasil Olímpico, no qual Hugo se tornou o primeiro mesa-tenista a ganhar a votação popular na categoria Atleta da Torcida, em 2019, e repetir a proeza em 2023. Além disso, ele saltou de 480 mil seguidores para 1 milhão durante os Jogos Olímpicos de 2024 (hoje tem 1,4 milhão).

Hugo Calderano em ensaio exclusivo para a GQ Brasil de outubro — Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil

Hugo se diz feliz em realizar um sonho. “Um dos meus grandes objetivos era ajudar a popularizar o tênis de mesa no Brasil. Quero ver várias crianças praticando. O esporte ensina, o esporte educa, independentemente de você querer virar um atleta profissional ou não”, analisa.

Nos últimos dois anos, ele acumulou feitos e títulos inéditos. Em 2026, já são dois no individual, incluindo o tricampeonato consecutivo da etapa brasileira do WTT e a conquista da ITTF Americas Cup. Em 2025, viveu o que muitos consideram o melhor ano de sua trajetória profissional até aqui, com cinco títulos, entre eles a histórica Copa do Mundo. Os resultados o alçaram à segunda posição do ranking global, a melhor colocação já alcançada por um jogador de fora da Ásia e da Europa (atualmente, ocupa a sétima posição da lista). Na edição deste ano d Copa, o ídolo levou para casa a medalha de bronze.

“A evolução não é linear. Tênis de mesa não é um esporte de performance em que você pode avaliar seus números, ver se está correndo ou nadando mais rápido. Então, vale cultivar essa mentalidade de não se frustrar e confiar no processo para continuar em evolução constante.”

Guilherme Costa, especialista em esportes olímpicos do sportv, publicou uma análise no site do ge cravando: “Hugo Calderano é o grande nome do esporte brasileiro no pós-Paris 2024”. Francisco Arado, o Paco, seu técnico e treinador da seleção brasileira masculina de tênis de mesa entre 2017 e 2024, já o definiu como um gênio.

Os dois se conheceram quando Hugo ainda era adolescente, por volta dos 14 anos, durante seus primeiros treinamentos e torneios pela Europa. Na mesma época, o menino havia acabado de se mudar da capital do Rio de Janeiro, onde nasceu, para São Caetano do Sul, em São Paulo — local com melhor estrutura para quem sonha em se tornar um atleta profissional da área, e onde Paco trabalhava com times de base.

Mudou-se para lá com o avô (“Minha avó deixou ele ir”, ri), que por dois anos atuou como “uma espécie de motorista, torcedor, acompanhante”, sempre ajudando-o no necessário. “No começo, por minha falta de experiência e conhecimento de seu alto nível, eu o via somente como um bom jogador”, lembra Paco. Depois dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, o técnico deixou o comando da seleção e, no ano seguinte, foi convidado por Hugo para assumir seu treinamento.

Hugo Calderano em ensaio exclusivo para a GQ Brasil de outubro — Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil

Paco identificou, então, o que descreve como características únicas. “O poder de entender os efeitos, as trajetórias da bola... Mas, principalmente, entender o jogo mental, o momento certo de fazer as coisas, de se recuperar de períodos ruins e achar soluções para vencer. Ele tem a capacidade e o prazer de aprender coisas novas em várias áreas, não somente no tênis de mesa”, elogia.

Outro atributo citado pelo técnico e pelo próprio Hugo: confiança em suas habilidades. “Sempre foquei bastante nos meus pontos fortes, para tentar transformá-los em pontos excepcionais. Para mim, esse jeito sempre funcionou mais. Claro, você também melhora seus pontos fracos quando treina muitas horas por dia, porém exploro a parte positiva. Isso até me dá mais prazer de treinar. Nunca busquei a perfeição”, explica.

As preparações costumam variar de acordo com a agenda atribulada dos campeonatos e com aquilo de que o atleta precisa no momento. Normalmente, são sessões de três horas pela manhã e mais três horas à tarde. Não dá para pular ainda as séries de exercícios de fortalecimento de músculos, principalmente das pernas e da região do core, para conseguir resistir à rapidez, à explosão e à repetição de movimentos que o tênis de mesa exige.

Em 2023, Hugo desenvolveu uma metodologia baseada em seu sistema de treino para ser aplicada em academias, escolas e outros centros de treinamento pelo Brasil. Em dezembro de 2025, inaugurou seu próprio clube, o Calderano TM, em Botafogo, no Rio de Janeiro, local onde se prepara quando está no Brasil. O aprendizado ali tem princípios simples: disciplina, criatividade e diversão.

Hugo entende que sua evolução profissional nem sempre está relacionada apenas ao que faz no esporte. Chamam atenção seus hobbies curiosos, como resolver um cubo mágico em segundos (até mesmo debaixo d’água), a prática de xadrez, os seis idiomas que aprendeu (sabe inglês, espanhol, alemão, francês, italiano e mandarim)... E ainda apareceu tocando ukulele e violão nas redes sociais.

Hugo Calderano em ensaio exclusivo para a GQ Brasil de outubro — Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil

“Gosto de me desafiar, de não ficar preso numa coisa só. O esporte de alto nível é bem repetitivo. Acho importante abrir outros horizontes. Não deixa também de servir como um descanso para a mente, por mudar um pouco o foco”, afirma. Nos últimos tempos, ele tem modificado o discurso sobre tempo livre, bem-estar, descanso, felicidade... Em coletiva de imprensa em abril de 2025, disse que, apesar de o tênis de mesa ser sua prioridade, gostaria de curtir um pouco mais. Queria uma abordagem diferente para o esporte para que não fosse “sacrifício total”.

A decisão veio após um momento crucial: a derrota na disputa pelo bronze nas Olimpíadas de Paris, em 2024. Ao final da partida, sentado na quadra, o choro demonstrava a tristeza de quem tinha chances reais de virar o primeiro medalhista olímpico das Américas na modalidade. Mesmo assim, o quarto lugar consistiu no posto mais avançado a que um brasileiro chegou na história do tênis de mesa na competição.

“Foi o momento mais desafiador da minha carreira, até da minha vida, mas nunca cheguei a pensar em parar. O atleta precisa estar ciente de que toda essa preparação não é garantia de nada. Os que conseguem resultados extraordinários são aqueles com coragem de pôr tudo na mesa. O resultado é consequência. Se eu não tivesse feito tudo o que podia para me dar as maiores chances de conseguir o meu objetivo, aí sim ficaria mais difícil de me perdoar”, atesta.
Mesmo abalado, ele seguiu aos poucos até, menos de nove meses depois (abril de 2025), acrescentar mais um tópico na longa lista de “primeiros” da carreira. Na Copa do Mundo, realizada em Macau, na China, desbancou o segundo e o terceiro colocados do ranking naquele momento até alcançar a final. Começou a decisão perdendo, mas logo arrancou uma virada impressionante sobre o chinês Lin Shidong, líder da categoria à época, e garantiu ao Brasil uma taça inédita na competição, tornando-se o primeiro atleta de fora da Ásia e da Europa a conquistá-la. Trata-se até agora, sem dúvida, do maior título de sua trajetória.
Hugo Calderano em ensaio exclusivo para a GQ Brasil em outubro — Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil
“Naquele momento senti uma felicidade pura. Senti que tudo tinha valido a pena. Isso me mostrou que eu ainda podia mais, o que não era nem esperado. Não estava na minha melhor forma, não me sentia tão bem quanto antes das Olimpíadas de Paris, por exemplo”, conta.
Agora, suas vitórias também são celebradas a dois. Em 2024, ele e Bruna Takahashi (atualmente a melhor mesa-tenista brasileira no feminino, 27ª no ranking), 26, se uniram para disputar campeonatos de duplas mistas. “Nas partidas, a gente consegue ver tudo aquilo que funciona ou não; aos poucos, vamos nos entrosando, encaixando o jogo cada vez mais. Quando treinamos em dupla, sinto que posso inserir algumas coisas do meu treinamento individual e vice-versa. Um pode ajudar o outro tanto na dupla quanto no individual. É uma parceria que acredito ter grande potencial para brigar por medalhas”, afirma Hugo.
Em julho, os brasileiros conseguiram o ineditismo de alcançar o segundo lugar no ranking mundial de duplas mistas — fruto de conquistas maiúsculas, mesmo em tão pouco tempo, como o Singapura Smash, em fevereiro deste ano, primeiro Grand Slam vencido por uma parceria não chinesa. Ao final da partida, um abraço apertado de comemoração. Uma demonstração de afeto do duo, que também namora (o enlace tornou-se público em fevereiro de 2024), mas mantém a relação longe dos holofotes.
“É fantástico poder dividir esses momentos com a pessoa que compartilha a vida com você, mas também é desafiador, né? Queremos ganhar, queremos o melhor para a dupla. Então, há uma certa cobrança. Ao mesmo tempo, precisamos botar tudo em pausa e pensar igualmente no pessoal. Devemos saber separar as coisas e entender que tudo o que falamos ali no jogo fica ali, que é só para o bem da dupla. E não levar para o lado pessoal. Acho que estamos conseguindo fazer isso muito bem”, comemora.
Sozinho ou acompanhado, Hugo segue focado. O calendário do tênis de mesa assusta os desavisados: existem mais de vinte competições importantes por ano. O desempenho nesses eventos é fundamental para marcar pontos, que vão se somando para definir o ranking global dos melhores mesa-tenistas. Além de tudo, estamos a dois anos das Olimpíadas de Los Angeles, e logo o foco se voltará a essa preparação.
“Para mim é muito importante tentar desfrutar ao máximo meus anos de atleta. Espero que ainda sejam muitos. Quero viver o máximo de boas experiências ao lado de pessoas de quem eu gosto”, finaliza.
Hugo Calderano em ensaio exclusivo para a GQ Brasil em outubro — Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil
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