A estreia da turnê Memórias Póstumas de Jão, realizada na noite de sexta-feira (25) no Nubank Parque, em São Paulo, escancarou uma tendência incômoda na indústria da música ao vivo: a priorização do registro audiovisual em detrimento da física do evento presencial. Diante de uma plateia de 55 mil pessoas, o cantor entregou um espetáculo grandioso, mas cuja concepção cenográfica parecia desenhada sob medida para as câmeras, e não para o fã que pagou pelo ingresso. A revelação explicou a estética da noite: o palco 360 graus, cercado por passarelas e com um piso coberto por água, funcionou como um verdadeiro set de filmagem a céu aberto. O telão de altíssima definição oferecia quadros dignos de cinema, mas a arquitetura do palco cobrou um preço alto de quem estava no gramado. Por ser excessivamente elevado e amplo, o cenário criou pontos cegos severedos para quem ocupava a pista premium e os setores próximos à grade. Para conseguir enxergar Jão, o espectador precisava manter o pescoço curvado em ângulos desconfortáveis ou se resignar a acompanhar a apresentação puramente pelas telas — uma ironia para quem esteve a poucos metros do artista. A visão mais limpa acabou ficando com as arquibancadas, ainda que dependente da transmissão interna.Para agravar o gargalo visual, a imponente esfera suspensa no topo da estrutura — que prometia ser o elemento central do design de iluminação — permaneceu completamente apagada durante todo o show. Sem esclarecimentos da assessoria sobre se o episódio foi fruto de uma falha técnica ou de uma escolha cênica inútil, a estrutura funcionou como um obstáculo, cortando a linha de visão do telão para diversos setores da plateia.Apesar dos erros logísticos do palco, o conteúdo do show reservou momentos de ousadia artística. A atriz Isabel Teixeira abriu a noite declamando Estrela da Manhã, de Manuel Bandeira, e retornou ao palco em outras quatro intervenções com reflexões sobre o luto, a vida e a morte. Embora a cadência teatral cause estranhamento em um show de arena e tenha deixado parte da plateia confusa no início, a entrega dramática da atriz trouxe uma densidade inédita para a apresentação. O ápice político e catártico da noite ocorreu durante a execução de Meninos e Meninas, quando Erika Hilton subiu ao palco. Celebrada efusivamente pelo estádio, Erika Hilton fez uma fala marcante em defesa dos direitos e do orgulho da comunidade LGBTQIA+, afirmando que a arte e a alegria do povo são “armas revolucionárias”. Musicalmente, Jão sustentou um repertório denso e intimista, impulsionado pelo coro eufórico de milhares de fãs. No entanto, fica a constatação crítica: Memórias Póstumas é um projeto cuja linguagem pertenceria à intimidade de um grande teatro ou a um especial fechado para o streaming. Ao tentar abraçar a dimensão de um estádio através de um filtro estritamente televisivo, a produção garante um produto impecável para o catálogo futuro, mas devendo a devida experiência visual a quem esteve presente.










