Ilca Maria Estevão

Desfile aconteceu nessa segunda (28/9), seguindo a característica mais marcante da Matières Fécales: a teatralidade junto à crítica social

Larissa Pontes, Ilca Maria Estevão

29/09/2026 02:00

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Fundada em 2014, a Matières Fécales carrega a provocação no próprio nome. O trabalho dos designers Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran ganhou maior projeção a partir de 2025, quando a dupla passou a integrar oficialmente o calendário do Paris Fashion Week.

Em 2026, a coleção The One Percent (O Um por Cento) surgiu como um manifesto político e uma sátira sombria à elite financeira global. Nesta temporada, a crítica permanece, mas o olhar se volta para os outros 99% da população mundial.

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A coleção segue a proposta crítica da marca

The Ninety Nine Percent (Os Noventa e Nove por Cento)

Abrindo a programação da Semana de Moda de Paris nesta segunda (28/9), a Matières Fécales apresentou a coleção de primavera/verão 2027, inspirada na parcela mais pobre da população mundial: os 99%. A diversidade do casting reforçava a proposta de representar liberdade, identidade e empoderamento a partir das vivências de pessoas vulnerabilizadas, marginalizadas e imigrantes.

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nome significa, literalmente, “matéria fecal”

A crítica aparece de forma literal em um dos elementos mais marcantes da apresentação: parte das modelos carregava bonecos que personificavam homens brancos. A imagem funciona como uma provocação à lógica de que o 1% mais rico é, em alguma medida, sustentado pelo restante da população, que carrega nas costas o peso de desigualdades econômicas e sociais e dos impactos ambientais associados ao consumo e à concentração de riqueza.

a marca reúne fãs que se sentem “outsiders” por ousarem parecer diferentes, num paralelo direto com experiências de pessoas queer ou não-binárias

As silhuetas mais secas ganharam dramaticidade e significado com véus, maquiagens em tons de preto, chapéus enormes e aplicações de spikes metálicos e estampas com palavras como “resist” (resista, em tradução livre). A estética sombria e carregada reforça o tom de enfrentamento que atravessa a coleção, sem abandonar o caráter teatral que marca o trabalho da dupla.

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Hannah e Steven costumam aparecer em público e nas redes com esclera preta (lentes que cobrem o olho todo), rosto esbranquiçado e próteses que simulam chifres alienígenas saindo dos membros

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Modelos tinham fenótipos muito variados
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Os desfiles da etiqueta sempre trazem teatralidade
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Algumas modelagens tinham amplitude na parte de baixo
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Parte do desfile trouxe uma atmosfera militar
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Algumas mensagens foram explícitas
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A origem da Matières Fécales
A etiqueta que já vestiu nomes como Zendaya, Demi Moore e Lady Gaga nasceu durante o período de formação dos estilistas fundadores, a partir da vontade de questionar as condições de trabalho na cadeia de produção de roupas. A marca liga essa motivação ao colapso da fábrica Rana Plaza, em Bangladesh, em 2013 e à falta de representação de diferentes corpos, raças e expressões de gênero na moda.
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Os designers da Matières Fécales, Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran
Em 2016, Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran nomearam a etiqueta para provocar e capturar a beleza e o grotesco da experiência humana, questionando a fachada glamourosa de uma cultura voltada ao luxo. Bhaskaran resumiu que, apesar de significar “literalmente ‘merda'”, o contraste entre a sonoridade sofisticada do francês e o significado direto da expressão representa a dualidade no centro da marca, misturando o bizarro e o refinado.
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Desfile de prêt-à-porter outono/inverno 2026-2027 da Matières Fécales, como parte do Paris Fashion Week
Momentos marcantes
Além das passarelas, a estética da Matières Fécales também ganhou espaço em grandes eventos e aparições no tapete vermelho. Entre os momentos de maior repercussão estão o vestido branco esculpido usado por Zendaya na première de A Odisseia, em Nova York, com asas de penas projetadas nas costas; o vestido de casamento de Gabbriette, confeccionado em cetim e tule, com a barra rasgada em uma referência a tecidos em decomposição; e o modelo de um ombro só, adornado com penas, usado por Lady Gaga no Grammy, em fevereiro deste ano.
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Zendaya na premiere de Odisseia
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Lady Gaga no Grammy 2026
E a coleção que trouxe grande destaque à Matières Fécales não pode ficar de fora: ao mirar os super-ricos, as criações satirizavam o 1% mais afortunado com luvas de ópera tingidas de vermelho nas palmas, máscaras estampadas com notas de dólar e próteses que simulavam cirurgias plásticas malsucedidas.
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Máscaras estampadas com notas de dólar cobrindo o rosto no desfile em crítica aos super-ricos
Apesar do exagero proposital, a execução técnica chamou atenção de quem acompanha moda de perto: prega, alfaiataria e armação de crinolina receberam o mesmo cuidado visto em ateliês de alta costura estabelecidos há décadas.
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O luxo vestindo o próprio excesso
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Próteses simulando cirurgias plásticas malsucedidas
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Desfile da Matières Fécales no último Paris Fashion Week
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Desfile da Matières Fécales no último Paris Fashion Week
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