Demétrio Vecchioli

Gaeco aponta que empresa de Antônio Carlos Freixo Junior parece ter se especializado em lavar dinheiro para grupos criminosos

Demétrio Vecchioli
24/09/2026 13:55
Divulgação/Entrepay
O Ministério Público de São Paulo avalia que o Grupo Entre, responsável por financiar o filme Dark Horse por orientação de Daniel Vorcaro, aparenta ter se especializado em um nicho de mercado específico: “a lavagem de capitais de grupos criminosos”. A afirmação aparece no documento em que o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) pede que a Justiça de São Paulo autorize a terceira fase da Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24/9) tendo o Grupo Entre como um dos seus alvos.
“O conglomerado de empresas capitaneado por Antônio Carlos Freixo Junior se orienta para a prática de lavagem de capitais para múltiplos grupos criminosos. Nesse aspecto, o Grupo Entre aparenta ter explorado economicamente o nicho de mercado da lavagem de capitais de grupos criminosos. Nota-se, portanto, uma ‘convergência’ entre organizações e grupos criminosos que utilizam os serviços de suas empresas“, diz o Gaepo.
Dark Horse não é citado no documento, mas sabe-se que foi a Entre Investimentos e Participações, parte do Grupo Entre, quem transferiu US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 65 milhões) para o fundo norte-americano Havengate Development Fund, que é descrito pela GoUp como responsável direto pelo financiamento do filme. As transferências foram combinadas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A investigação do Gaeco, que passa por Freixo (conhecido como “Mineiro”) porque o Grupo Entre teria atuado como entreposto para a fraude investigada nesta terceira fase da Carbono Oculto, mostra outros indícios de que a holding era especializada em lavagem de dinheiro.
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Um deles, 19 comunicações da Superintendência de Seguros Privados (Susep), que regulamenta o mercado de seguros, sobre operações de Mineiro que somam mais de R$ 4,3 milhões. “As comunicações revelam um padrão contínuo e reiterado de operações envolvendo seguros, previdência e capitalização, com compras frequentes de apólices e resgates de valores elevados. Em vários períodos, o cliente (Mineiro) foi classificado como risco máximo para lavagem de dinheiro. Há incompatibilidade entre renda declarada e volume das operações. O comportamento é reiterado ao longo de anos, envolvendo tanto pessoa física quanto empresas ligadas”, disse a Susep.
Também é citado que, entre o início de 2020 e maio de 2025, foram realizadas 570 comunicações tendo Mineiro como “ganhador” de prêmios de loterias, que somam R$ 176 milhões
“A suspeita desta investigação é que o Grupo Entre Investimento seja um ponto de convergência criminal, ou seja, um prestador de serviços de blindagens financeiras e lavagem de capitais para múltiplos grupos criminosos”, explica o MP. Ele fechou um acordo de delação premiada com a Procuradoria Geral da República (PGR) em agosto, mas não está claro se ela envolve os fatos investigados.
Na estrutura investigada na Carbono Oculto, o Grupo Entre, atuou como uma “interposta pessoa” e fachada corporativa para blindar os verdadeiros líderes da organização criminosa, Beto Louco e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”.
Para criar essa camada de dissimulação, a Entre Investimentos assumiu formalmente as cotas do fundo Celebration FIP, veículo utilizado para deter o controle da Usina Itajobi. No entanto, a investigação comprovou tratar-se de uma alienação simulada: o controle operacional e estratégico da usina e do fundo permaneceu com o crime organizado, sendo gerido diretamente pelo advogado Rogério Garcia Peres, apontado como o coordenador da engrenagem de lavagem de dinheiro do grupo.
Além de funcionar como laranja na propriedade da usina, o Grupo Entre, segundo o MP, cedeu suas estruturas financeiras para atuar como “conta de passagem” na expansão do cartel no setor de combustíveis. A Entre Investimentos injetou R$ 20 milhões na conta recém-aberta da Usina Itajobi na fintech Credihome SCD, valor que foi repassado imediatamente ao Fundo Radford, no qual a própria usina figurava como cotista exclusiva.
Esse Fundo Radford foi então utilizado por Beto Louco e Mohamad para financiar a compra da distribuidora Terrana por meio de Cédulas de Crédito Bancário (CCB) emitidas para a empresa fachada Branson Holdings, ocultando os reais beneficiários da aquisição.

