Primeiro vieram rachaduras em paredes e ruas, depois um tremor transformou a rotina de Pinheiro, em Maceió. O que parecia um problema localizado revelou um desastre ligado à mineração de sal-gema. A remoção avançou por cinco bairros e deslocou cerca de 60 mil pessoas, redesenhando uma parte inteira da capital alagoana.
Como o Caso Pinheiro começou?
O episódio ganhou dimensão pública em 3 de março de 2018, quando moradores sentiram um tremor e passaram a conviver com danos mais visíveis. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), apareceram fendas nas ruas, rachaduras nos imóveis, crateras e pontos de afundamento. Danos semelhantes também surgiram em Mutange e Bebedouro ainda naquele ano.
Moradores já relatavam problemas antes do tremor, mas os danos se agravaram após fortes chuvas em fevereiro. Em 2019, relatos graves chegaram a Bom Parto, ampliando a dimensão territorial do problema. O fenômeno passou a ser chamado de Caso Pinheiro, embora a área afetada ultrapassasse os limites do bairro que lhe deu nome. A investigação geológica transformou aquelas marcas na superfície em pistas de um processo muito mais profundo.
🏛️ 2018: Tremor e rachaduras tornam o problema visível.
🌿 2019: Estudos ligam a instabilidade à mineração de sal-gema.
🚀 Hoje: Área segue sob monitoramento e fechamento das cavidades.
O que aconteceu debaixo de Maceió?
Corte ilustrado explica a mineração de sal-gema sob área urbana - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
A mineração retirava sal-gema de camadas situadas entre 900 e 1.200 metros de profundidade, conforme informa a Agência Nacional de Mineração. O método empregava água injetada por poços para dissolver o sal e retirar salmoura. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), havia 35 frentes de lavra incluídas no plano de fechamento. A atividade de lavra na capital começou em 1976, segundo o órgão regulador.
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) investigou a movimentação entre 2018 e 2019. Seus estudos identificaram a relação entre a instabilidade geológica e a exploração de sal-gema na região. Após a conclusão dos trabalhos, a mineração foi paralisada em 2019 e começou a retirada da população das áreas críticas. A subsidência, nome técnico do afundamento, passou a ser acompanhada por monitoramento contínuo do terreno.
Por que cerca de 60 mil pessoas deixaram a região?
A retirada ocorreu porque a movimentação do terreno criou risco para imóveis e moradores nas áreas classificadas para realocação. A Prefeitura registra que o afundamento atingiu Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol. Em balanço oficial, o município informou que quase 60 mil pessoas precisaram deixar suas casas. O processo aconteceu em etapas, conforme novas áreas foram incorporadas aos mapas técnicos.
O MPF apresenta uma dimensão semelhante por outro recorte. A instituição registra mais de 14 mil imóveis em área comprometida, ocupados por 57 mil moradores e comerciantes. Essa superfície equivale, segundo o órgão, a cerca de 255 campos de futebol. A saída afetou moradias, comércios, serviços e vínculos construídos durante décadas. Em 2020, acordos judiciais organizaram a realocação e a compensação financeira para moradores incluídos nas áreas definidas pelas autoridades.
O que restou depois da desocupação?
A paisagem esvaziada é consequência de uma retirada organizada por mapas de risco e acordos de realocação, não de um abandono repentino. A versão atual do Mapa de Linhas de Ações Prioritárias diferencia áreas de realocação e pontos que permanecem sob observação. Sua quinta versão foi ampliada pela última vez em novembro de 2023. A Defesa Civil informa que equipamentos medem deslocamentos do terreno até em escala de milímetros.
O monitoramento também inclui inspeções em imóveis situados nas bordas da região afetada. Técnicos procuram fissuras, rachaduras e outros sinais compatíveis com a movimentação associada à subsidência. Na área classificada como 00, a movimentação mais severa indica realocação. Na área 01, moradores podem permanecer, enquanto o terreno continua acompanhado. Assim, bairros antes integrados à rotina urbana passaram a conviver com zonas desocupadas, restrições e vigilância técnica permanente.
Situação
O que significa
Realocação
Áreas com movimentação mais severa e indicação de retirada dos moradores.
Monitoramento
Áreas acompanhadas por instrumentos e inspeções para verificar mudanças no terreno.
O impacto terminou na linha do mapa?
Não, porque os efeitos sociais alcançaram áreas que não estavam dentro da zona formal de risco. Em outubro de 2022, um novo acordo passou a tratar a situação dos Flexais, região próxima aos bairros desocupados. Segundo o MPF, o território sofreu com um processo de ilhamento socioeconômico, apesar de ficar fora do mapa de risco.
Esse detalhe ajuda a entender por que o desastre não pode ser medido apenas pelas rachaduras. Quando moradores, comércios e serviços deixam uma área vizinha, quem permanece também pode perder acesso a atividades básicas. O afundamento, portanto, alterou tanto o solo quanto as relações urbanas ao redor dele.
Uma cicatriz que continua no mapa
O Caso Pinheiro mostra como um processo subterrâneo pode alterar, em poucos anos, a geografia social de uma capital. O desastre atingiu cinco bairros, deslocou dezenas de milhares de pessoas e deixou uma extensa área submetida a controle técnico. O fechamento das frentes de lavra e o monitoramento mantêm o subsolo de Maceió sob acompanhamento das autoridades. Se você passar pela capital alagoana, procure conhecer essa história pela memória das comunidades que precisaram reconstruir suas rotinas e vínculos em outros lugares.
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