Andreza Matais

PF suspeita que mulher seja “laranja” de empresário ligado a organização social, que é próxima a presidenciável Ronaldo Caiado (PSD)

Eduardo Militão

18/09/2026 04:05

Gabriela Letrari/Pref.Palmas

A Divisão de Repressão à Corrupção da Polícia Civil do Tocantins (PCTO) realizou busca e apreensão na última quinta (10) em uma empresa de saúde que negociou com uma agência de veículos que, segundo a Polícia Civil paulista, era intermediária do Primeiro Comando da Capital (PCC). O caso foi revelado pelo Metrópoles em maio.

As informações da reportagem foram mencionadas pelos policiais na representação direcionada à Justiça tocantinense, que autorizou as medidas contra a empresa Medic 360 Serviços Médicos. A empresária Maria Luiza de Barba, que figura como sócia da firma, também foi alvo.
A prefeitura de Palmas (TO) terceirizou a administração de duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da cidade à Santa Casa de Misericórdia de Itatiba (SP), que, por sua vez, “quarteirizou” o serviço à empresa da Medic 360.
Maria Luiza assina como procuradora da organização social e, na outra ponta, recebe como empresária, aponta despacho do juiz da 1ª Vara de Garantias de Palmas, Milton Lamenha.
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A prefeitura pagou R$ 11,5 milhões apenas em abril deste ano, mas não houve nenhuma prestação de contas mesmo depois de solicitação da polícia. É o que diz a representação policial ao magistrado na segunda fase da operação “Falsa Emergência”.
A polícia tocantinense fez buscas na residência da empresária Maria Luiza, no Rio de Janeiro; na sede da Medic 360, em Pinheiros, bairro nobre de São Paulo (SP); na Santa Casa em Palmas, e em endereço em Itatiba atribuído ao provedor da Santa Casa, Emerson Neto.
Medic 360 e Mediplus pagaram intermediários do PCC no mesmo dia
A reportagem apurou que um das suspeitas da polícia do Tocantins é que Maria Luiza seja “laranja” do empresário Thiago Telles Batista de Souza. Como mostrou o Metrópoles, a Polícia Civil de São Paulo aponta Telles como o “Tom Cruise”, o controlador da Mediplus Serviços Médicos e outras empresas que prestavam serviços de saúde em Goiás para a organização social Imed. O Imed é próximo ao candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD). A diretora do Imed e Telles organizaram, em 2024, evento do Grupo Lide para Caiado apresentar suas realizações e propostas para o país.
A PCTO também investiga a Mediplus. A apuração ocorre em outra frente da Operação “Falsa Emergência”. No relatório final da primeira fase, os policiais destacaram que uma investigada atua na Santa Casa e também tem “envolvimento” com a Mediplus, que possui “contratos públicos de elevado valor econômico”.
Empresa diz que colabora com investigação
A defesa de Thiago Telles nega sua participação nas empresas, ao menos da forma como as polícias do Tocantins e de São Paulo as descrevem. Ele também nega quaisquer vínculos com o PCC. Procurada pela reportagem, a Medic 360 afirmou apenas que “está à disposição das autoridades” e “vem colaborando com todas as informações solicitadas”.
Como mostrou o Metrópoles, a Polícia Civil de São Paulo indica Telles como “beneficiário final” de um esquema em que o PCC lava dinheiro do tráfico, dos golpes e dos jogos de azar por meio de uma agência de veículos de luxo em Osasco chamada Keycar, que seria intermediária da facção com duas empresas. Uma das empresas controladas por ele repassou R$ 351 mil à intermediária em 16 de maio de 2024, por meio da “R. Braga Comércio de Veículos”. No mesmo dia, a Medic 360 repassou mais R$ 394 mil à intermediária, por meio da “Braga Administradora de Bens”, segundo a investigação.
Desde maio, o Metrópoles questiona Maria Luiza de Barba e a Medic 360 sobre qual o motivo de fazerem o pagamento à empresa do grupo Keycar. A empresária se nega a responder.
Na primeira fase da Operação Falsa Emergência, os policiais identificaram “direcionamento” na escolha da organização social para o contrato de R$ 139 milhões da prefeitura de Palmas com a Santa Casa. Houve “supressão de etapas legalmente exigidas, elaboração artificial de documentos públicos e pareceres, bem como manobras orçamentárias e majoração artificial de custos com potencial prejuízo ao erário, tudo no apagar das luzes de 2025”, segundo relatório que indiciou dez pessoas por crimes como corrupção, desvio e lavagem de dinheiro.
Há conflito de interesses, diz polícia
Em representação à Justiça solicitando buscas, a Polícia Civil de Tocantins diz que a prefeitura pagou R$ 11,5 milhões à Santa Casa. Desses valores, R$ 6,4 milhões foram destinados à Medic 360. Os policiais apontaram um possível conflito de interesses pelo fato de Maria Luiza atuar nas duas pontas da operação.
“A análise do afastamento do sigilo bancário descortinou que a investigada Maria Luiza Ferreira de Barba, procuradora com plenos poderes de gestão da conta bancária da parceria, direcionou pagamentos por via de Pix e transferências que somam R$ 6.474.693,64 em proveito da empresa Medic 360 Serviços Médicos Ltda. (SCP 001), pessoa jurídica da qual é sócia e administradora”, escreveu o juiz Milton Lamenha, da 1ª Vara de Garantias de Palmas, ao autorizar as buscas.
“O exame documental e a análise das movimentações financeiras revelam fluxo financeiro incompatível com a regular execução do objeto conveniado” – Milton Lamenha, juiz
Os policiais de Tocantins apontaram ao juiz que a Polícia Civil de São Paulo identificou pagamentos da Medic 360 para os intermediários do PCC, fato noticiado por reportagem do Metrópoles.
Presidenciável cobrou Coaf
Ronaldo Caiado disse à reportagem que autoridades investigativas e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) deveriam ter avisado o estado de Goiás, que ele comandou, do envolvimento de pessoas com eventuais vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
O advogado de Telles afirma que seu cliente comprou carros de luxo e nega vínculo com o Primeiro comando da Capital. “Determinadas associações inicialmente estabelecidas em relação ao sr. Thiago Telles foram posteriormente reavaliadas pelas próprias autoridades responsáveis pela investigação”, avaliou a defesa em nota à reportagem. A Polícia Civil de São Paulo indiciou o empresário por lavagem de dinheiro depois de deflagrar a Operação “Falso Mercúrio”. Segundo decisão judicial e informações obtidas pelo Metrópoles, essa é a situação do caso até o momento.
Empresas ligadas a Telles receberam mais de R$ 200 milhões
A Mediplus não prestou esclarecimentos à reportagem. A Santa Casa de Misericórdia de Itatiba disse que entregou conjunto de documentos dentro do que “foi entendido como pertinente para a continuidade das investigações”. “Grande parte dos documentos solicitados já estava publicamente disponível no Portal da Transparência da instituição, acessível a qualquer cidadão”. Embora a instituição diga que “não é parte” no processo, a decisão judicial cita-a expressamente como alvo das buscas.
A Secretaria de Saúde de Palmas afirmou ao Metrópoles que “segue colaborando” com as investigações e que está selecionando nova organização social de saúde para administrar as duas UPAs.

