CEO da London Stock Exchange Group (LSEG) falou em entrevista exclusiva ao Valor sobre os planos da companhia para o Brasil, a operação 24 horas por dia recentemente anunciada e como a IA vai alterar a forma como os dados são consumidos no mercado financeiro

David Schwimmer, presidente da London Stock Exchange Group — Foto: Ana Paula Paiva/Valor

As companhias brasileiras têm “ótimas oportunidades” para acessar a Europa, como alternativa às bolsas de Nova York, onde muitas das que abriram capital tiveram desempenho aquém do esperado. Essa é a avaliação do CEO da London Stock Exchange Group (LSEG), David Schwimmer, em entrevista ao Valor durante passagem por São Paulo. “O Brasil tem ótimas empresas, mas se a companhia não for gigante, e vier de fora dos EUA, é muito difícil atrair a atenção do mercado americano. Sua ação se torna ‘órfã’”, disse.

Já em Londres, afirmou, uma empresa de médio porte, que seria ignorada nos EUA, tem grandes chances de entrar no radar dos investidores europeus. Schwimmer esteve no Brasil exatamente para conversar com clientes, parceiros e possíveis empresas que se interessem pela possibilidade de listar suas ações na bolsa de Londres.

Esse movimento, inclusive, já começou. Em maio, ocorreu a oferta pública da Meridian Mining, que atua na extração de ouro e cobre no Mato Grosso, e há outras empresas brasileiras na fila, segundo Schwimmer.

A LSE não está de olho apenas nas companhias que queiram abrir o capital. Ela possui uma plataforma chamada Private Intermittent Securities and Capital Exchange System (Pisces) para negociação de empresas de capital fechado, mas no ambiente de bolsa.
O mecanismo é uma forma de oferecer uma porta de saída dos primeiros investidores das companhias, como fundos de private equity e venture capital, sem que a empresa abra o capital. De acordo com o CEO da LSEG, o projeto “decolou” e deveria ser uma tendência replicada por outros mercados.
“Muitos pensaram que seria apenas um ‘degrau’ para um futuro IPO [oferta inicial de ações, na sigla em inglês], mas a realidade é que empresas sem qualquer intenção de abrir capital estão utilizando”, disse. Junto à tokenização, o sucesso da iniciativa é, na sua visão, uma transição conceitual de “mercados abertos versus fechados” para “líquidos versus ilíquidos”.
A despeito da sua fama — a bolsa de Londres já foi a maior do mundo, antes de Nova York se tornar o centro financeiro global — o negócio como bolsa, em si, é hoje a menor parte das receitas da LSEG. Representou em torno de 4% da receita do grupo no primeiro semestre. O restante veio das verticais de dados e análises, índices (como o FTSE Russell) e infraestrutura de mercado. Neste último âmbito, a LSEG é fornecedora de tecnologia para a A5X, que aguarda aprovação como bolsa de derivativos no Brasil.
Schwimmer afirmou que o mercado brasileiro é “muito estratégico” para a LSEG. Fica aqui um dos principais centros de operações na América do Sul, com cerca de 60 funcionários, e o segundo da América Latina, ao lado da Costa Rica, onde há 300 funcionários e o atendimento ao mercado americano.
Questionado sobre como vê a desconcentração em curso no mercado brasileiro, com a montagem de novas bolsas, ele disse que o modelo ideal é uma espécie de “híbrido”, no qual o incumbente enfrenta pressõe competitivas, mas não há uma dispersão da liquidez a ponto de reduzir atração dos investidores globais. “Infraestrutura de mercado é algo interessante porque existem algumas dinâmicas nas quais pode fazer sentido ter um único provedor, um lugar onde todos sabem onde a liquidez está concentrada. O problema é que você não quer que ele aja como um monopólio.”
Na Europa, esse processo de concorrência ocorreu pelas plataformas multilaterais de negociação (MTFs, na sigla em inglês), nas quais é possível executar ordens de compra e venda de ativos de diferentes bolsas europeias em um só ambiente. Nesse contexto, a bolsa de Londres mantém uma posição “competitiva muito saudável” no Reino Unido e compete, através da Turquoise (o MTF da LSEG), com outras plataformas do gênero no resto da Europa.
Bolsa "non stop"
O efeito dessa pressão competitiva é um esforço maior de inovação e acompanhamento de tendências globais. Um exemplo mencionado por Schwimmer é a negociação de ativos 24 horas por dia em bolsa, anunciada em julho. Batizada de LSE 24, deve começar a funcionar ainda neste ano. O funcionamento será 24 horas por dia, de segunda a sexta-feira. Inicialmente, serão negociados os fundos listados em bolsa (ETFs), pela demanda asiática concentrada nesses ativos, em especial nos ETFs temáticos, como os de tecnologia. Com o tempo, a intenção é expandir para outros ativos. Também foi anunciada, no mesmo período, a negociação de ações tokenizadas, que potencialmente serão incluídas no LSEG 24 no futuro.
A negociação ininterrupta não é consensual no mercado britânico. “Existem visões divergentes, mas acreditamos que a demanda é real e vamos lançá-la nos próximos meses”, disse. Os principais defensores do modelo são negociantes de outros fusos horários; investidores de varejo, para realizar transações após o horário de trabalho, à noite; o mercado de criptomoedas, que já negocia ininterruptamente e questiona: “por que não também as ações?”; e os institucionais que desejam ter a opção de executar ordens assim que um evento global ocorre.
Do outro lado, há uma parte dos investidores institucionais que veem o risco de redução da liquidez durante a madrugada e ineficiência dos mercados, com distorções de preços. Além disso, há o custo extra de gerenciamento para manter equipes em horários alternativos.
A plataforma de negociação 24 horas será compatível com a plataforma MCP (model context protocol, na sigla em inglês), que permite a conexão de agentes de inteligência artificial ao ambiente de bolsa e de dados da LSEG. “Um algoritmo de inteligência artificial poderá consultar preços às 2h da manhã e executar operações automaticamente. É uma grande inovação, mas estamos apenas começando”, disse Schwimmer.
De todos os negócios, o de dados e análises e inteligência de risco é aquele em que o executivo vê maior possibilidade de ampliação da atuação no Brasil. As ferramentas englobam múltiplas classes de ativos, até, por exemplo, dados de negociação de preços de energia no mercado livre. O uso da IA nessas ferramentas foi um dos principais temas da teleconferência de resultados da companhia, em julho. Nela, acionistas da LSEG foram incisivos ao questionar como as novas ferramentas poderão ser rentabilizadas.
“Se cobrarmos com base no número de pessoas sentadas na mesas de operações, nossa receita pode não crescer tanto. Se cobrarmos com base no consumo de dados, o crescimento seria significativamente maior. Essa é uma mudança do nosso modelo de negócios nos últimos anos, e tendemos a seguir nessa direção.”
O desenvolvimento das funcionalidades ainda está em fase embrionária. Por ora, a LSEG não cobra pelo uso da IA no LSEG Workspace, principal módulo de dados da empresa. O momento, diz Schwimmer, é de explorar soluções e testar o uso delas pelos clientes. “Estamos testando quantos tokens poderemos dar gratuitamente antes de começar a cobrar por esse uso”, diz. Há um teto, e esse limite é atualizado a cada mês, com base no histórico de uso. Esse período de triagem deve durar ao longo de todo o ano.
Com o tempo, será definida uma quantia específica — “digamos, 5 milhões ou 10 milhões de tokens por mês por usuário” — que estará incluída no produto. A ideia é que, ultrapassado esse limite, seja cobrado um valor adicional. O uso até então permitiu antever alguns comportamentos “interessantes”, conta o executivo. Por exemplo, há os usuários médios que fazem certo número de perguntas por dia, e depois há “super usuários”, que utilizam uma quantidade muito maior de tokens diariamente. Além disso, as diferenças entre o uso de dados por agentes de IA e por humanos é expressiva – em alguns casos, a demanda dos agentes chega a ser dez vezes maior do que se fosse um humano.
A disponibilização dos dados para uso pelos novos agentes de IA é um dos focos da empresa neste momento, e faz parte da estratégia “LSEG Everywhere”, que postula que a empresa deve estar presente em todos os canais de distribuição que seus clientes desejarem. Entre as parcerias já existentes estão a Anthropic, OpenAI, Databricks, Snowflake e Microsoft, entre outras.
A integração segura dos dados da LSEG com essas ferramentas é um diferencial competitivo da empresa, avalia Schwimmer. Ele vê o mercado ansioso para adotar essas funcionalidades, como forma de melhorar eficiência e capacidade de extrair conclusões de uma vasta base de dados, mas há desafios enormes de gestão de risco, segurança cibernética e precisão das informações.
“Você não pode ter informações quase certas no mercado financeiro. E você não pode usar sistemas nos quais não confia, seja nos dados subjacentes ou na sua capacidade de gerenciamento”, afirma.
David Schwimmer, presidente da London Stock Exchange Group (LSEG) — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
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