Dois pediatras explicam por que atrasar doses e pular reforços ainda é tão comum, quais vacinas estão disponíveis no SUS e na rede particular, o que muda com a nova indicação para bebês a partir de 6 semanas e o que fazer se a caderneta do seu filho está atrasada

Saiba quais são as diferenças das vacinas ofertadas no SUS e na rede particular, para proteger as crianças da meningite — Foto: Magnific
Saiba quais são as diferenças das vacinas ofertadas no SUS e na rede particular, para proteger as crianças da meningite — Foto: Magnific · Imagem: Saiba quais são as diferenças das vacinas ofertadas no SUS e na rede particular, para proteger as crianças da meningite — Foto: Magnific

De todas as conversas sobre vacina que uma mãe pode ter com o pediatra, poucas pesam tanto quanto a que envolve a meningite. E não é exagero, é a própria natureza da doença que assusta. “Entre todas as doenças na pediatria, especialmente as infecciosas, a meningite com certeza é a que mais assusta as famílias. E não é à toa, já que aquelas causadas por bactérias, as meningites bacterianas, são extremamente graves, com uma taxa de letalidade de mais de 20%. Uma em cada cinco crianças que adquirem uma meningite bacteriana vem a óbito e, entre aqueles que sobrevivem, praticamente um terço fica com uma sequela definitiva”, afirma o pediatra Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Meningite: os erros mais comuns ao vacinar os filhos
Meningite: os erros mais comuns ao vacinar os filhos · Imagem: Source: revistacrescer.globo.com

Saiba quais são as diferenças das vacinas ofertadas no SUS e na rede particular, para proteger as crianças da meningite — Foto: Magnific

Meningite: os erros mais comuns ao vacinar os filhos
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- Calendário de vacinação infantil 2026: veja as vacinas indicadas por idade para os bebês e crianças

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O que torna o quadro ainda mais delicado é a imprevisibilidade. Não existe um perfil claro de criança “de risco” que permita saber, de antemão, quem vai desenvolver a forma grave. “Não há como prever quem será a criança que vai evoluir com meningite, embora algumas condições clínicas possam favorecer. É imprevisível conseguirmos identificar aquela criança que tem o risco aumentado. Por isso, as vacinas desempenham um papel fundamental”, explica Kfouri. A boa notícia, segundo ele, é que hoje já existe proteção para boa parte das bactérias causadoras da doença, com vacinas de eficácia altíssima.

Meningite: os erros mais comuns ao vacinar os filhos
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O problema é que, com a queda nas taxas de vacinação observada no Brasil e no mundo, essa proteção anda ameaçada. E os deslizes na hora de vacinar, muitos deles silenciosos, acabam deixando brechas justamente onde a criança mais precisa de cobertura. A seguir, os especialistas respondem às principais dúvidas e deixam um recado que vale por toda a caderneta.

Adolescente tomando vacina: Todos os menores de 20 anos devem receber a vacina para a proteção da meningite — Foto: Magnific
Adolescente tomando vacina: Todos os menores de 20 anos devem receber a vacina para a proteção da meningite — Foto: Magnific · Imagem: Adolescente tomando vacina: Todos os menores de 20 anos devem receber a vacina para a proteção da meningite — Foto: Magnific

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Os erros que até mães informadas cometem

Meningite pode causar febre — Foto: Freepik
Meningite pode causar febre — Foto: Freepik · Imagem: Meningite pode causar febre — Foto: Freepik

Mesmo com informação na palma da mão, alguns tropeços se repetem nos consultórios. O mais comum é tratar a vacinação como algo pontual, e não como um esquema que precisa ser completado. Atrasar doses porque “a agenda apertou”, pular reforços achando que a criança já está protegida ou acreditar que uma dose única resolve tudo são deslizes frequentes, e perigosos. Boa parte das vacinas contra a meningite só alcança a eficácia esperada quando todas as doses e os reforços são aplicados nos intervalos certos.

Meningite: os erros mais comuns ao vacinar os filhos
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Parte desses erros nasce de um paradoxo da nossa época: como quase não vemos mais crianças com meningite por aqui, cria-se a falsa sensação de que a doença “sumiu”. É justamente o sucesso das vacinas que, ironicamente, faz algumas famílias baixarem a guarda. Some-se a isso o medo das reações, e o resultado é uma caderneta que vai ficando para trás.

Meningite: os erros mais comuns ao vacinar os filhos
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Sobre esse receio, Kfouri é direto e faz questão de desmistificar. “Essas reações que, às vezes, as vacinas podem trazer são reações leves, que duram um, dois dias e não devem, obviamente, ser objeto de medo de vacinar seus filhos. A doença é muito mais grave”, pontua.

Meningite: os erros mais comuns ao vacinar os filhos
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Ele acrescenta um alerta prático que pouca gente conhece: não se deve dar antitérmico de forma preventiva, “já chegando em casa”, para evitar reação. “Isso pode até atrapalhar algumas vacinas a fazer o seu efeito”, diz. O medicamento só entra em cena se a criança realmente apresentar febre ou dor no local depois.

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SUS x rede particular: o que muda na proteção contra a meningite

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Aqui mora uma das dúvidas mais importantes para as famílias, e a resposta é honesta: sim, existe diferença. O calendário do SUS é robusto e cobre boa parte das meningites bacterianas, mas há lacunas que a mãe precisa conhecer para não se descuidar. Veja o comparativo:

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No SUS (rede pública)

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- Vacina pneumocócica: protege contra o pneumococo, principal causa de meningite bacteriana no país hoje

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- Vacina meningocócica C: disponível no calendário infantil

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- Vacina meningocócica ACWY: oferecida, mas apenas para crianças acima de 1 ano de idade

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- Não oferece a vacina contra o meningococo B

- Cobre boa parte das meningites bacterianas, mas deixa lacunas nos primeiros meses de vida e para o sorogrupo B

Na rede particular

- Vacina pneumocócica: disponível (em versões que podem cobrir mais sorotipos)

- Vacina meningocócica C: disponível

- Vacina meningocócica ACWY: disponível já para bebês a partir de 6 semanas de vida (indicação ampliada recentemente pela Anvisa), e não só após 1 ano

- Vacina contra o meningococo B: disponível apenas nesta rede, altamente recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

- Permite completar a proteção na fase mais vulnerável, o primeiro ano de vida

Kfouri detalha onde estão essas brechas. “Algumas dessas meningites ainda não temos vacinas disponíveis na rede pública. Então, o meningococo B só é oferecido no serviço privado, vacina altamente recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria. E aquela vacina com mais tipos, a A, C, W, Y, só está disponível no SUS para crianças acima de um ano de idade”, explica ele.

Em setembro, a Anvisa ampliou a indicação da vacina meningocócica ACWY (MenQuadfi) para bebês a partir de 6 semanas de vida na rede privada, uma decisão que os especialistas celebram justamente por antecipar a defesa de quem corre mais perigo. “As crianças menores são mais suscetíveis, e estamos falando de uma doença extremamente grave, que pode evoluir rapidamente. Quanto mais cedo a gente protege, melhor”, diz a pediatra Anna Dominguez Bohn, formada pela USP e integrante do corpo clínico dos hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.

Na prática, isso significa que um bebê que depende exclusivamente do SUS pode ficar sem cobertura para alguns sorogrupos justamente na fase mais vulnerável, o primeiro ano de vida.

A recomendação de Kfouri é não enxergar isso como uma escolha entre um sistema e outro, mas como camadas de proteção que se somam. “Sempre que possível, completar o esquema vacinal do Ministério da Saúde, que é excelente e cobre boa parte delas. Mas, sempre haverá vacinas adicionais onde a gente pode completar a proteção de nossas crianças e adolescentes”, orienta.

E reforça um recorte que muita gente desconhece: a vacinação contra a meningite não é só coisa de bebê. “Todos os menores de 20 anos devem ser vacinados contra meningite”, lembra.

Adolescente tomando vacina: Todos os menores de 20 anos devem receber a vacina para a proteção da meningite — Foto: Magnific

Um cenário que pede atenção redobrada

Para quem acompanha a doença de perto, o momento é de alerta, não de tranquilidade. E uma das razões é a própria dinâmica da bactéria, que não é estática. Os sorogrupos que circulam hoje podem não ser os mesmos de amanhã, o que exige vigilância constante do calendário vacinal.

É o que explica a Anna. “Apesar de os sorogrupos B e C serem hoje predominantes no Brasil, isso pode mudar de tempos em tempos. A epidemiologia da doença muda, e podemos ter o surgimento ou o aumento de outros sorogrupos para os quais a população não está protegida. As crianças menores sempre serão mais vulneráveis”, afirma.

A médica acrescenta um fator que o mundo 'sem fronteiras' trouxe para a conta e que não pode ser ignorado. “Vivemos em um mundo muito mais globalizado, em que as pessoas transitam muito mais. Sorogrupos importantes em outros países podem chegar ao Brasil. Por isso, revisitar o calendário vacinal e entender como proteger mais a população é essencial”, diz.

Rio de Janeiro amplia a idade para a vacinação ACWY

Quem mora no Rio de Janeiro tem um motivo a mais para colocar a caderneta em dia agora. A cidade está com um resgate vacinal contra a meningite, com a vacina ACWY, que protege contra quatro tipos da doença e é a principal forma de prevenção. Até o dia 31 de outubro, todas as pessoas de 3 meses a 59 anos de idade podem aproveitar a oportunidade para se proteger.

O imunizante está sendo aplicado nas clínicas da família, nos centros municipais de saúde e nas três unidades do Super Centro Carioca de Vacinação, enquanto houver disponibilidade. Vale lembrar que o resgate é destinado a quem ainda não foi vacinado com a ACWY. Para conferir os endereços e mais informações, basta procurar a unidade de saúde mais próxima ou acessar o site da prefeitura.

O preço de uma caderneta desatualizada (que vai além do seu filho)

Quando uma dose fica para trás, as consequências se desdobram em dois níveis. No individual, a criança fica exposta a uma doença que, mesmo com tratamento, cobra um preço altíssimo. Segundo dados citados por Anna, com base na Anvisa, cerca de 10% das pessoas que desenvolvem a doença meningocócica invasiva morrem, e até 20% dos sobreviventes podem ficar com sequelas permanentes e incapacitantes. Para uma infecção que evolui em questão de horas, cada dose em dia é tempo ganho.

No nível coletivo, o estrago é mais silencioso, mas igualmente grave. Quando muitas crianças deixam de se vacinar, perde-se a chamada imunidade de rebanho, aquela proteção indireta que blinda até quem não pode ser vacinado, como bebês pequenos demais para certas doses ou crianças imunossuprimidas. Uma caderneta desatualizada, portanto, não é um problema só da sua casa: ela abre uma porta para que a bactéria volte a circular e encontre justamente os mais frágeis.

É por isso que a baixa cobertura vacinal deixou de ser uma estatística distante para virar uma preocupação concreta de saúde pública. Proteger o próprio filho é, ao mesmo tempo, proteger a criança do vizinho, o coleguinha da escola e o bebê de colo que ainda nem completou o esquema.

O recado que todo pai e mãe precisa ouvir

Se há uma mensagem para a mãe que está lendo com uma dose atrasada do filho na cabeça, ela é simples e carrega urgência e alívio na mesma frase: ainda dá tempo, e vale muito a pena. Atualizar a caderneta é sempre possível, e o pediatra é o melhor aliado para reorganizar o que ficou para trás, sem culpa e sem pânico.

A lógica, no fim, é de uma clareza que acalma. “O calendário vacinal em dia ajuda muito a proteger as crianças, já que essas vacinas têm eficácia superior a 95%, 97%. Dificilmente a gente vai ver um quadro de meningite numa criança adequadamente vacinada”, tranquiliza Kfouri. Em outras palavras: a vacina funciona, e funciona muito bem, desde que o esquema esteja completo.

Que a notícia da ampliação da vacina para os menores sirva de empurrão para revisar a caderneta hoje mesmo. Como torce Anna, o caminho é fazer a proteção chegar cada vez mais cedo e a cada vez mais crianças. “É excelente essa notícia. Esperamos que essa proteção possa chegar o quanto antes a mais crianças, contribuindo também para uma saúde mais igualitária”, diz a pediatra. Contra uma doença tão rápida e tão grave, a melhor defesa continua sendo a mais antiga: a dose certa, na hora certa. Vamos proteger nossas crianças.

Meningite pode causar febre — Foto: Freepik

- Brasil vive epidemia de meningite? Especialistas respondem

O que é meningite?

A meningite é uma inflamação das meninges — membranas que envolvem e protegem o cérebro e a medula espinhal. Segundo o presidente da Sociedade Alagoana de Pediatria (SAP), Marcos Gonçalves, microrganismos como bactérias, vírus, protozoários e fungos podem se alojar na nasofaringe e, a partir daí, invadir a corrente sanguínea, alcançar o sistema nervoso e provocar a inflamação dessas membranas.

Como ocorre a transmissão?

A meningite pode ser causada por bactérias, vírus ou fungos — e cada tipo se transmite de um jeito diferente. A meningite bacteriana costuma passar de pessoa para pessoa por gotículas da respiração, como tosse, espirro e beijos, embora algumas bactérias também possam vir de alimentos.

É mais comum observar meningites causadas por bactérias, como:

- Bactérias Neisseria meningitidis (Doença Meningocócica Invasiva)

- Streptococcus pneumoniae (pneumococo)

Já a meningite viral pode ser transmitida pelo contato com pessoas infectadas, objetos contaminados ou até por água e alimentos, além de, em alguns casos, picadas de mosquito.

A meningite por fungos não passa de pessoa para pessoa: ela acontece quando a pessoa inala esporos (pequenos pedaços de fungos) presentes no ambiente, como no solo ou em locais com fezes de animais.

Quais são os principais sintomas?

A doença requer atendimento médico imediato, pois pode evoluir rapidamente ao longo do tempo. Veja os sintomas, de hora em hora:

*0 a 8 horas: sintomas iniciais inespecíficos

- Irritabilidade;

- Perda de apetite;

- Febre;

- Náusea/vômito;

- Odinofagia (dor ao engolir);

- Coriza;

- Dores em geral (crianças maiores e adolescentes);

- Dor em membros inferiores (lactentes e crianças pequenas);

- Sonolência;

- Hipotonia (tônus muscular baixo em lactentes menores de 1 ano);

9 a 15 horas: sintomas clássicos da doença

- Má perfusão periférica (circulação sanguínea deficiente nos membros);

- Rash hemorrágico, devido à fragilidade dos vasos (lesões que aparecem na pele);

- Rigidez de nuca. Apesar de ser um sintoma muito conhecido, em 60% a 80% dos casos, principalmente entre os menores de 2 anos, esse sinal não é visto.

- Fotofobia;

- Fontanela abaulada (menor de 1 ano) — quando a moleira está um pouco mais levantada;

16 a 24 horas: pode progredir de sintomas iniciais não específicos a óbito em 24h

- Confusão/ delírio;

- Perda de consciência;

- Convulsão;

- Choque séptico;

- Falência multi-sistêmica

- Óbito

Quais são as vacinas para meningite?

- BCG — contra a meningite tuberculosa

- Haemophilus influenzae tipo B

- 10-valente (VPC10), 13-valente (VPC13), 15-valente (VPC15) e 20-valente (VPC20): contra doença pneumocócica. No SUS, estão disponíveis a VCP10 e a 13 e 23 para pessoas com comorbidades.

- Vacina meningocócica C, ACWY e B: protege contra doença meningocócica. No SUS, estão disponíveis a vacina C e ACWY.

*Sintomas apresentados durante o evento Meningite Meningocócica: um alerta à saúde no Brasil —promovido pela GSK em 26 de novembro, em São Paulo.

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